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Portugal

Fasciolose

Etiologia & Epidemiologia

Os factores epidemiológicos da doença são influenciados pelo maneio das pastagens. Animais que pastam em áreas pantanosas ou molhadas e em ambientes ligeiramente ácidos, têm maior probabilidade de se infectarem. Geralmente, anos com longos períodos de chuva estão associados com maiores taxas de infecção, sobretudo quando a pluviosidade coincide com o fim da Primavera e Verão. Estas condições favorecem a proliferação de um caracol (Galba (Limnea) truncatula) que é hospedeiro intermediário obrigatório da doença. Estes caracóis adquirem formas especiais de Fasciola hepatica (os miracídios, capazes de nadar) e amplificam a infecção, resultando, no fim do ciclo exterior, as formas infectantes para os animais, enquistadas na erva (as metacercárias).

Uma vez dentro do tubo digestivo dos animais infectados, as metacercárias sofrem um desenquistamento, passam através do intestino e, atravessando a cavidade peritoneal, migram para o fígado, penetrando a cápsula hepática. Em média, estas formas imaturas demoram 4 – 6 dias a chegar ao fígado dentro do qual migram ao longo de algumas semanas. É durante esta fase que ocorrem a maior parte das mortes em ovinos, quando as quantidades de metacercárias ingeridas são volumosas; as mortes nestes casos são resultado de hemorragias internas, anemia e graves lesões hepáticas. As fascíolas jovens migram no tecido hepático atingindo os ductos biliares, nos quais atingem a fase adulta. Desde a ingestão das metacercárias na erva até às fascíolas adultas há um intervalo de tempo que tem cerca de 10 semanas. As fascíolas adultas podem permanecer no fígado durante anos, alimentando-se de sangue: esta acção provoca lesões crónicas no fígado e anemia devido à perda de sangue. As fascíolas adultas podem excretar milhares de ovos que são libertados com a bílis no intestino delgado, chegando finalmente à pastagem através das fezes. Podem ser produzidos milhares de ovos por dia por cada fascíola, sendo esta capacidade reprodutiva condicionada pelas estações do ano; a excreção é maior a partir do fim do Inverno, altura em que as condições são mais propícias ao ciclo exterior da doença. 

Sintomas

Em ovinos, que são mais sensíveis à doença, a fasciolose pode ser classificada em: aguda, sub-aguda ou crónica.

A fascíolose aguda aparece subitamente 5 – 6 semanas após ingestão de elevadas quantidades de metacercárias num curto espaço de tempo. Isto leva a uma migração de elevado número de fascíolas imaturas através do fígado o que pode ter consequências devastadoras nos rebanhos afectados. É frequente haver mortes súbitas sem que haja tempo para haver sinais clínicos prévios. A maior parte dos casos de fasciolose hepática aguda ocorre, classicamente, durante o Outono. No entanto, em países de clima mais ameno esta sazonalidade pode ser bastante menos marcada ou mesmo inexistente, havendo o risco de haver surtos de doença aguda em outras alturas do ano. Com as alterações climáticas já atrás mencionadas, a sazonalidade da doença tem vindo a tornar-se menos marcada, mesmo em países nos quais, no passado, esta era muito definida (países com invernos muito frios).

A fasciolose sub-aguda ocorre quando as metacercárias são ingeridas em menores quantidades e durante um longo período de tempo, em contraste com a forma aguda atrás descrita. O aparecimento de sintomas não é tão rápido como na fasciolose aguda apesar de poder conduzir, ao fim de algum tempo, à morte dos animais afectados.

A fasciolose crónica é a forma mais comum de infecção. É provocada por formas adultas de fascíola nos ductos biliares que se alimentam de sangue, conduzindo a uma anemia progressiva. Os animais tornam-se gradualmente anémicos à medida que a actividade das fascíolas adultas aumenta, podendo observar-se outros sintomas tais como edema ou inchaço por baixo da mandíbula(papo). 

Diagnóstico

A maior parte dos diagnósticos de fasciolose crónica são feitos durante a inspecção em matadores, quando as fascíolas adultas são encontradas nos ductos biliares dos animais infectados. Na ausência de identificação das fascíolas, que resultam de tratamentos antihelmínticos eficazes antes do abate, pode ser observado um fígado com lesões crónicas, com cicatrizes e espessamento ou calcificações dos ductos biliares.

 Os seguintes métodos podem ser usados para determinar a presença de fascíola hepática nas explorações:

1. Exame clínico dos sintomas associados à fasciolose (mais provavelmente observados nos pequenos ruminantes)

Fasciolose Aguda:

  • Ocorre principalmente em ovinos 5 – 6 semanas depois da ingestão de uma quantidade elevada de metacercárias.
  • Deve-se à destruição do parênquima hepático pelas fascíolas imaturas que migram no tecido hepático
  • As lesões hepáticas extensas e a hemorragia podem levar à morte rápida dos animais afectados

Os sinais clínicos incluem mau estado geral, fraqueza, perda de apetite, palidez e edema das membranas mucosas e conjuntiva e dor à palpação na zona do fígado. 

Fasciolose Crónica:

  • Provocada por uma quantidade pequena de metacercárias ingeridas pelos ovinos durante um longo período de tempo. 
  • É menos provável que os animais morram, mas desenvolve-se fasciolose crónica. 
  • Os sinais clínicos incluem membranas pálidas devido à anemia, perda de peso e geralmente desenvolvimento de edema sub-mandibular (papo).

Nos bovinos, que são mais resistentes à fasciolose, é frequente a doença ser subclínica e passar despercebida, sobretudo em animais que não têm outras doenças e estão com boa condição corporal. No entanto, a presença de fascíolas no fígado é também nociva nesta espécie, mesmo na ausência de sintomas, podendo contribuir para atrasos de crescimento e menor precocidade reprodutiva. A rejeição de fígados no matadouro é outra causa importante de perdas económicas em bovinos afectados pela doença.

2. Pesquisa fecal de ovos

O diagnóstico de fasciolose crónica pode ser confirmado através da detecção de ovos nas fezes. Os ovos de fascíola só aparecem nas fezes dos animais que têm fascíolas adultas já instaladas nos ductos biliares. Raramente acontece antes das 10 semanas após a infecção inicial. Assim, em infecções agudas e precoces dos ductos biliares, não são detectados ovos nas fezes e o diagnóstico deve ser feito com base nos sinais clínicos, necrópsias e em análises imunológicos. Além disso, a carga parasitária de fascíolas presente nos ductos biliares pode não se reflectir na quantidade de ovos presente em amostras de fezes. Os ovos podem ser eliminados pelo hospedeiro de forma intermitente, por isso as amostras individuais de fezes podem conter poucos ovos, apesar da presença de uma grande quantidade de parasitas no fígado. Por este motivo, a pesquisa de ovos é considerada pouco sensível para detectar a fasciolose, devendo ser complementada com técnicas imunológicas e necrópsias dos animais que morreram com suspeita da doença.

3. Química clínica para os enzimas plasmáticos associados com lesão hepática 

Na fasciolose aguda, o perfil hematológico mostra uma anemia consistente com uma perda de sangue aguda e hemorragia interna, eosinofilia e hipoalbuminémia. Em casos crónicos, o perfil hematológico mostra uma anemia consistente com uma regeneração activa dos glóbulos vermelhos na medula, juntamente com hipoalbuminémia e eosinofilia. As concentrações no sangue de enzimas hepáticas estão muitas vezes aumentadas.

4. Pesquisa da presença de anticorpos específicos anti-Fascíola no sangue ou no leite

5. Identificação de antigénios específicos de Fascíola nas fezes

Recentemente, foram desenvolvidos testes que permitem a detecção destes antigénios, denominados de coproantigénios, em amostras fecais de animais individuais ou amostras de fezes de um grupo de animais.

Tratamento

Utilização de fasciolicidas.

Os fasciolicidas devem ser utilizados como parte integrante de um programa de tratamento estratégico para controlar a fasciolose. Um plano de saúde da exploração deve ser planeado com a ajuda do médico veterinário. O plano deve ter em consideração factores como a história de fasciolose na exploração, informações provenientes dos matadouros, condições climáticas e monitorização da presença de ovos nas fezes. O principal objectivo dos programas de tratamento é limitar a eliminação de ovos de fascíola, sobretudo nas alturas do ano mais críticas, tais como Primavera e início do Verão. Apesar de ser possível controlar a doença, a erradicação completa da fasciolose numa exploração pode ser impossível, em parte devido à complexidade do ciclo e também porque os animais selvagens tais como os veados e ratos podem actuar como reservatórios da infecção.

Prevenção

Boas práticas de maneio da exploração.

Têm sido sugeridas várias opções, incluindo cercas para as áreas em que se identificaram os caracóis hospedeiros. 

 Controlar o hospedeiro intermediário, o caracol.

A erradicação total dos caracóis com produtos químicos ou biológicos não é habitualmente viável, devido à ausência de moluscicidas aprovados para o efeito e também porque alguns desses potenciais produtos químicos acarretariam impacto ambiental considerável. Outra opção consiste na drenagem das áreas pantanosas que os caracóis habitam.

Impacto económico

  • A importância económica da fasciolose está relacionada com as seguintes perdas ou lesões:
  • Morte dos animais (principalmente ovelhas e cabras) durante os surtos de fasciolose aguda
  • redução dos ganhos de peso e/ou qualidade inferior da carne, leite e lã dos animais afectados
  • Rejeição de fígados nos matadouros.
  • Custos de tratamento com anti-helmínticos
  • Questões de bem-estar animal.
  • A fasciolose pode afectar os humanos (é uma zoonose)

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